terça-feira, 7 de agosto de 2007

Triste futebol de outros caminhos


Nos últimos tempos, o futebol tem andado em polvorosa. Menos pelo que se apresenta em campo, o que nao é muita coisa hoje em dia, mais pelo que expressam técnicos e, recentemente, um juiz - este, de toga e sem apito.

Manoel Maximiano Junqueira filho indeferiu processo movido pelo jogador são-paulino Richarlyson, que processava um dirigente do Palmeiras que insinuou, em um programa de TV, que ele fosse homossexual. Em nota, o meritíssimo disse que não há notícia, em grandes times, de jogadores gays. E, se Richarlyson é, que crie uma liga específica.

É como se voltássemos aos primórdios, quando o futebol era aristocrático, e negros não passavam nem na porta. Um minutinho de pitada histórica: Conta-se que Carlos Alberto, vindo do América para o Fluminense, disfarçou a pele escura com pó de arroz por medo de discriminação. Mas o suor fez o disfarce desbotar. Daí a alcunha de "pó de arroz" dada ao tricolor. Tá certo que o professor Antônio Jorge Soares não vai muito com a cara dessa história. Segundo ele, por ser filho de um fotógrafo renomado na época, Carlos Alberto não tinha por que temer o preconceito. Na versão de Soares, o pó de arroz simbolizava o empoamento da sociedade da época. Mas, nesse tempo, o primeiro clube a aceitar negros foi o Bangu, em 1916 - seis anos depois da implantação do futebol no país, e a 28 de distância da abolição.

Outra travessura da Justiça que pode se desenhar é uma provável punição ao técnico do São Paulo, Muricy Ramalho. Como cidadão, o treinador discordou da decisão do STJD de absolver o doping do botafoguense Dodô. Além do mais, ele teria insinuado que, se o jogador fosse do São Paulo, seria impiedosamente punido, pelo fato de o Tribunal ser no Rio, e alguns desembargadores ser torcedores do Botafogo.

Uma provável punição de Muricy significará um tiro no pé da democracia.

Agora... quem pisou na bola foram Renato Gaúcho e Joel Santana. O Portaluppi não mediu palavras para criticar a arbitragem e disse, com todas as letras, que o Fluminense foi "roubado". Na Vila Belmiro, Joel foi flagrado mandando bater caso os jogadores do Santos, já sacramentando o 3 a 0, resolvessem fazer gracinha.

Uma condenação severa demais será uma tempestade em copo d'água. Mas deve ser coibida, sob risco de precedente.

Tristes tempos estes. O exterior não nos leva só os craques, mas o papo que deveria predominar: as grandes jogadas.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Greve

Ainda era madrugada quando Elza acordou. Quatro e meia. Precisava chegar às nove na Sé. Enfim uma entrevista. Dali a um mês comemoraria aniversário de desemprego. Graças a uma reestruturação daquela loja de roupas do Eldorado. Em frangalhos contábeis, resolveu cortar cabeças. Sobrou! Como pagaria a faculdade?

De bico em bico foi pagando o que dava, e não era muito. Seis meses de atraso. Não tinha mãe pra ajudar. Implacável, o infarto não deixara tempo de reação. O pai, coitado, não tinha aposentadoria que chegasse nem pra casa.

Vestiu do seu melhor conjuntinho e esperou deixar o Campo Limpo o quanto antes. Torcendo para que aquela marinete lotada não a amassasse inteira. E para que mãos mais atrevidas não a atacassem.

A caminhada até o Terminal fora mais acidentada do que de costume. O coletivo ficava mais tempo parado do que em movimento. A Estrada de Itapecerica era um oceano de carros, caminhões, ônibus e vans. Os motoboys se polivaliam em ziguezague, buzinaço e xingamentos. E ai de quem não desse passagem.

Seis e meia. Que o trânsito de São Paulo é insano, não é novidade. Mas a esta hora? O que é que tá pegando? Desceu no João Dias ainda tentando se refazer da tontura. Tomada de raiva e desespero: "Parece que os deuses conspiram contra mim."

Era verdade. Alguém nos céus, definitivamente, não gostava dela. O maremoto se repetia lá dentro, dessa vez com pessoas. E barulho. Tanta gritaria formava uma sonzeira uníssona de coisa nenhuma. Ensandecida. Conseguiu distinguir uma frase no meio da babel.

- O metrô tá de greve.

Percebeu que não eram os deuses das ruas os culpados. Não é possível. Justo hoje? Não vou conseguir.

Quinze pras oito. Finalmente conseguira pegar o Terminal Bandeira. Espremida entre hálitos e cotovelos.

Mas a marginal teimava em não andar. Oito e quinze. Batia os pés e resmungava. Sentia vontade de voar no pescoço de um daqueles homens de cinza. Quis descer e sair correndo pelo meio do trânsito. Conseguiu capitalizar o pouco de lucidez que lhe restava e permaneceu no lugar.

Dez pras nove. Ufa! A Nove de Julho deu uma folga no estresse. Chegou ao Bandeira ofegante. De sentidos turvos. Pareceu apagar em pleno movimento. Chegaria ao local combinado às nove e cinco. E à porta um aviso: "Vaga preenchida!"

Voltou a si. Foi catando as notícias aqui e ali. Soube de um tal de PR que os metroviários queriam. Não queria saber. Já faltavam cinco pras nove. Iria a pé, mesmo.

Nove e cinco. "Já era. Mas não cheguei até aqui pra desistir". Chegou à recepção tentando botar o coração no lugar. Subiu. Já cheia de vergonha pelo atraso, bateu à porta.

- Pode aguardar, disse a recepcionista. O seu Ferreira tá preso no trânsito e vai se atrasar um pouco.

Aliviada, Elza não deixou escapar a ironia. A paralisação que lhe foi tão inimiga havia também dado uma mãozinha.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

As orquestras do esporte


A década de 60 conheceu um grupo de notáveis absolutamente fantástico no que faziam. Entre eles, um rei. Uma orquestra de harmonia impecável, cujo spalla vinha de outro mundo.


Os músicos, muito jovens, vieram de diferentes partes do país. Com a referência de tantos artistas mais experientes, foram acertando o que seria a mais bela reunião de artistas que já se viu.


Quebrava até o protocolo. Enquanto as sinfonias habituais se vestiam de preto, esta geralmente usava branco. E mesmo a platéia mais exigente aplaudia de pé. Alguns entusiastas mais jovens só tinham olhos para o solista. Mas havia também o violoncelista, que se posicionava do lado esquerdo. De sonoridade vigorosa e potente. O clarinetista da linha de frente, mais sutil do que seus pares. Um tocador de harpa veloz, do lado oposto ao homem do violoncelo. E um discreto violista, oposto ao spalla.


Na parte de trás, tubas, trompetes e percussões davam a segurança necessária. No meio deles, o maestro, bravo como nunca, fazia com que aquele grupo de notáveis atuassem em conjunto.


E conquistaram juntos os palcos do mundo inteiro. Embasbacou Benfica e Milão. E, embora paulista, se viu nos braços do Rio.


Essa orquestra, que não vi tocar, é o tão decantado Santos de Pelé, a mais famosa hegemonia do esporte brasileiro.


Para compensar essas tantas histórias que não vivenciei, um novo grupo de notáveis reproduz tamanho domínio nos nossos dias: a seleção masculina de vôlei.


Uma orquestra menor, mas não menos afinada. Giba é o artista completo. Defende, passa e ataca do fundo. Gustavo é o central vigoroso, que bate rápido, bate forte e ergue uma quase intransponível muralha sobre os adversários. Rodrigão, o outro jogador de meio, é mais cerebral, de saque maroto e ataque veloz. O hábil Sergio vai como um raio nas bolas que passam pelo bloqueio. Dante faz um inferno das defesas oponentes. E André Nascimento, o canhoto do time, faz das jogadas difíceis o seu triunfo. Regidos pelo mais louco maestro de que se tem notícia: Ricardinho.


Todos unidos pelo rígido controle do diretor artístico Bernardinho.


Essa trupe traz consigo inúmeros troféus: seis Ligas Mundiais consecutivas, um Mundial, um ouro olímpico e um pan-americano.


E é muito raro vê-los desafinar.

Olha eu aí.


Esse aí sou eu

Tô tentando colocar, de novo, a minha foto no perfil. A outra desapareceu do mapa. hehe

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Elton John pede o fim da internet. Pode?


Esse Elton John é uma figura.

Acdredita que ele pediu a extinção da internet? Pois é... ele acha que a rede está destruindo as relações pessoais e a música.

Tudo porque a vendagem do seu último trabalho foi um fiasco: 100 mil cópias.

Em vez de se adaptar aos novos tempos, o ilustríssimo cantor prefere que o mundo recue à idade da pedra. É como se pedissem o fim da televisão para não destruírem o rádio.

Pois saiba ele que a rede não acabará com a música. Pelo contrário! Alguns artistas não existiriam se não fosse por ela. E até as gravadoras estão se mexendo para não ficar pra trás.

Outros também se adaptaram aos novos tempos. Prince, por exemplo - por quem nunca morri de amores - prefere dar de graça os seus CDs. A sua fonte de renda são os shows.

Quanto às relações pessoais... elas estão a salvo. Não há MSN que substitua o olho no olho.

A hipocrisia do Tio Sam

Acabei de receber um e-mail que me deixou de cabelo em pé. Uma empresa norte-americana propõe a "venda" da Amazônia, porque os países que a abrigam não estão a sua altura.

E aí, eu pergunto: vocês, ianques, estão à altura do planeta em que vivem? Vocês são os campeões mundiais de poluição atmosférica. Chegaram ao cúmulo de se recusar a assinar um compromisso de reduzir as emissões de gás carbônico.

E as suas florestas, senhores caras pálidas? Onde estão? E os seus índios?

E os direitos humanos, Tio Sam? Guantánamo, Iraque, Afeganistão, Vietnã, Hiroshima, Nagasaki... puxa vida, como os senhores tratam bem os cidadãos desse mundo, não?

Com que moral os senhores vêm espezinhar Brasil, Bolívia, Colômbia, Venezuela, Guianas e Peru?

Depois não querem receber vaias...

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

A cidade louca nos enlouquece


Um de meus maiores defeitos é me indignar em demasia por cotidianidades. Ainda estou trabalhando isso.


No trânsito desta babel desenfreada que é São Paulo, não é lá muito fácil manter a calma.


Dia desses, estava eu na Berrini, uma espécie de Avenida Paulista emergente. Mui paciente, esperava para voltar pra casa.
Eis que aparece uma de minhas opções. Como havia outros ônibus a sua frente, ele pára a uns 100 metros do ponto. Um ou dois apressadinhos espertos - figuras detestáveis, mas estou trabalhando isso - correm para embarcar.


Como sempre faço, espero a sua chegada no ponto. Mas, como se não tivesse mais obrigação de parar, o motorista sequer olha ao meu sinal e vai embora.


Tudo bem. Há outras alternativas.


Vem um outro lá atrás. Nova parada a poucos metros de onde estou. E mantenho a posição de aguardá-lo no ponto.


E este faz a mesma coisa.


E aí, perco a compostura e exagero na dose. Solto um palavrão a plenos pulmões.


Uma vergonha imensa toma conta de mim. Depois, raciocino: o cara não ouviu, porque o motor berra a seu lado.


Retomo a calma e vou em um terceiro coletivo. Que, aleluia, pára.


Para amainar a minha própria consciência, desembarco dizendo "obrigado" ao motorista.


Cidade estressante é um eterno desafio aos nossos nervos. Mas é preciso tentar.