terça-feira, 4 de agosto de 2009

Notícia em Foco: uma reflexão

O programa Notícia em Foco, da CBN, fez ontem uma edição especial, com plateia. Fiquei sabendo por acaso, num átimo de segundo, pelo rádio. Soube da presença de Eliane Brum, repórter especial da Época de cujos textos gosto muito.

O anúncio passou rápido, e fui procurar detalhes na internet. Aconteceria no Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na Paulista. Estaria presente também Lourival Sant'Anna, do Estadão. Na página correspondente, não havia cadastro. Apenas um aviso segundo o qual estaria "sujeito à lotação do auditório". Bom, então era melhor chegar cedo, porque poderia bombar. Veio-me a sabatina com o Ronaldo Fenômeno na mente, quando cheguei faltando poucos minutos para começar e só arrumei um bom lugar por pura sorte.

Me surpreendi com a pouca concorrência: entrar foi muito sossegado. Mariza Tavares, uma das apresentadoras, deu-nos as boas vindas. Eliane e Roberto Nonato também já estavam presentes. Tal como acontece na sabatina da Folha, as cadeiras se apresentavam de maneira circular. Ao fundo, um marcador digital registrava as horas. "Mas ele nunca está certo", disse a bem humorada Mariza. Sant'Anna chegaria dali a instantes.

Ainda faltavam vinte e cinco minutos para o programa começar. Uma senhora de sotaque estrangeiro a meu lado reclamou do atraso. Achou que começaria às seis e meia, mas estava marcado para as sete. Ela ainda me recomendou outros eventos envolvendo jazz e cinema judaico. Conversei também com duas mulheres e um homem sobre o acidente com Felipe Massa e a polêmica dos fretados que assola São Paulo. Se cada minuto no rádio é uma eternidade, ela passou veloz.

E o programa começou. Tímida, a voz de Eliane mal saía do microfone. Mas mesmo assim deu uma verdadeira aula. Quando ainda era repórter do Zero Hora (jornal gaúcho) contou que percorreu por telefone as delegacias de Porto Alegre e região em busca de algum crime. Mas a notícia que a esperava beirou o absurdo. "Guria, aqui tá tão tranquilo que temos uma galinha presa." Aí, ela teve de ir a Sapucaia conferir. "Se eu só contasse, ninguém acreditaria". E a ave estava lá, presa por "atitude suspeita". Ela era parda.

"A realidade é bem mais interessante do que qualquer ficção". Foi com essa máxima que Lourival concluiu uma experiência vivida na Turquia. O Papa Bento XVI visitaria o país em um momento de tensão. Ele havia relacionado o islamismo à violência, o que gerou uma revolta entre os muçulmanos. Quando o repórter chegou, foi direto ao memorial de Kemal Ataturk, o fundador da república da Turquia. No trajeto, a sua intérprete lhe disse ter um amigo que acreditava ser o jornalista um profissional que "mente bem". Chegou e entrevistou um casal de camponeses que só estava ali para honrar Ataturk, e não estava nem aí para a visita do Papa.

Para Eliane, a preparação de uma reportagem é a busca para "se perder". "O melhor da reportagem é quando tudo dá errado. Porque 'tu encontrou' algo que não tava no script". Ela sustenta ainda que o repórter deve se despir de todos os seus preconceitos e opiniões para produzir uma matéria. Em palavras suas: ir a campo vazio para ser preenchido pela história. E usa como exemplo a experiência de morar na Favela da Brasilândia (zona norte de São Paulo), onde quis descobrir o cotidiano dos moradores locais, e encontrou encontrou humanidade e intensas histórias de amor... de cachorros. Segundo ela, se estivesse na cabeça as imagens pré-fabricadas de tráfico e tiroteio, a matéria não teria a mesma qualidade. "'Tu fica' cego, e repórter não pode ser cego"

Curioso foi constatar como cada um deles lida com a notícia. Eliane vivencia a experiência. Ela conta que foi a responsável por retratar os últimos dias de uma paciente terminal de câncer. Sentiu que Ailce lhe tinha dado confiança, e era "a dona" de uma história que a doente jamais leria. Uma angústia recorrente sua é não conseguir transformar em palavras todas as nuances da notícia. "O pior de tudo é descobrir a frase certa às três da manhã, quando a revista já fechou. Eu fico grávida das minhas matérias".

Sant'Anna prefere uma distância cirúrgica. "Dedico tanta energia a descobrir a história e conquistar a confiança do entrevistado que não dá tempo de sentir emoções. Mas nem por isso ele deixou de viver emoções fortes. Na cobertura da guerra entre Rússia e Geórgia, fora sequestrado e teve um fuzil apontado para a sua cabeça. Num instinto, puxou a maçaneta do carro, um Lada em frangalhos, e saltou. No mesmo dia, teve outra arma apontada para a sua garganta. "Disseram depois que eu tenho cara de georgiano" (risos)

Mas Lourival e Eliane têm muitos pensamentos em comum. Um deles diz respeito à complexidade que o tempo jornalístico não permite traduzir. "O lead com todas aquelas perguntas - quem, o quê, quando - , é algo ultrapassado", diz Lourival. Ele conta que a pirâmide invertida - texto com as informações mais importantes vindo em primeiro lugar - apareceu no século XIX, na guerra entre EUA e Espanha. As notícias eram dadas por telex, e o aparelho poderia "cortar" trechos importantes. Por isso, o essencial vinha na frente. "Mas isso aconteceu há 100 anos", completa. "A notícia tem cheiro, textura", concorda Eliane. Na opinião da repórter da Época, o que um entrevistado deixa de dizer, os gestos e a forma como ela conta uma história é tão importante quanto a história em si.

Reflxões acerca dos destinos do jornalismo impresso também foram compartilhadas por eles. Para Lourival, o jornal de papel continua chato, e precisa de uma reforma, já que a internet ocupou um espaço importante. Já Eliane acredita que as pessoas não estão sendo retratadas e muitas histórias não são contadas. "A gente virou as costas para a Amazônia. O nosso fervor nacionalista se dói quando algum estrangeiro fala dela com alguma propriedade, mas não damos a ela o devido valor." O repórter do Estadão esteve em um trecho da floresta e de lá trouxe histórias fantásticas, que não são contadas no eixo "principal" do país. "Restringir o Brasil ao que acontece em Rio, São Paulo e Brasília nos tira da realidade" diz Eliane.

Tanta eternidade - e tantas outras - em apenas uma hora. Deixei o Conjunto Nacional com a sensação de que este jornalista ainda tem muito feijão a comer pelas reportagens da vida.

sábado, 1 de agosto de 2009

Uma proposta mais que decente

Lúcia preparava a comemoração de seu oitavo aniversário de casamento com André. Jantar, velas, vinho. Ele a presenteia com flores, e a celebração parecia caminhar sem sustos... Não fosse por Marcelo.

Desesperado, ele pede ao amigo que empreste a sua mulher para dar prosseguimento a uma mentira há muito arquitetada: fingir ao tio Juventus, milionário fazendeiro dos pampas que chegara à cidade, que é marido dela. O velho chega trazendo muito mais do que chapéu, bombachas e chimarrão. Traz também uma verdadeira caixa de pandora que assombra os farsantes e transforma para sempre as suas vidas.

"Proposta Indecente" é uma comédia de Duarte Gil que entrelaça amizade, falsidade, ganância e traição numa história divertida. Usa do humor, digamos, "sexual" como uma ferramenta necessária ao andamento da história, e não se escora nele para baratinar.

Afiado, o elenco tem desenvoltura para escapar das armadilhas "off script" de cada encenação, como o sensacional "me perdi" de Lúcia e o "você me bateu", de Marcelo para André. O time estabeleceu com o texto uma relação simbióticamente engraçada. Igor Kowalewski (André), Rodrigo Feldman (Marcelo) e a lindíssima Ana Paula Vieira (Lúcia) são muito bons. Mas quem brilha é Denis Derkian, o tio Juventus, numa espécie de "Analista de Bagé" mais suave.

Proposta indecente tem cenário caprichado e é bem produzido. O texto explora todas as possibilidades da trama. A despeito do final um tanto cruel, Proposta Indecente faz rir sem ser apelativa demais.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Rejeições que magoam

Quando entro na internet, raramente saio muito de uma gama de sites pré-estabelecida (não sei se escrevi certo. Maldita reforma ortográfica). Tenho o costume de ler duas revistas semanais na íntegra. Uma delas é a Época. Apesar de lê-la, não acessava muito o seu site.

Aí, dia desses resolvi quebrar o protocolo. E eis que achei um espaço muito interessante: o de Ivan Martins. Ele fala de relacionamentos sob o ponto de vista masculino... sem ser machista. Neste último texto, ele falou do quão vazio seria um mundo sem mulheres.

Entre os meus convivas lá na Irmandade, costumo brincar que, se eu tivesse o improvável direito de reencarnar (nossos ensinamentos pregam que os filhos de Estrela d'Alva estão em sua derradeira viagem pela Terra), eu agradeceria muito se não voltasse mulher. Porque aí, teria de desejar homens. Cá pra nós... adorá-las é muuuuito melhor. E, além do mais, seremos cada vez mais minoria no mundo. Eu consigo conviver com o ônus de viver menos. hehehe

Mas o que quero destacar, na verdade, é que, numa de suas colunas, Martins acerta na mosca quando fala de vulnerabilidades e inseguranças prementes no sexo masculino. "Homens também têm suscetibilidades, inseguranças e desconfortos".

E eu vou um pouco além: nós também ficamos magoados, chateados e afins. E esse papo segundo o qual é fascinante a mulher que rejeita - pelo gosto pela aventura - é algo que não tá totalmente dentro da realidade. De vez em quando, um não também pode ser desolador.

Certa vez, conheci uma moça no curso de inglês, a Rê. Ela trabalhava como recepcionista e tinha um sorriso encantador. Depois de emitir alguns sinais, tomei coragem e a convidei para sair. O "não" que eu tomei foi daqueles de ficar tonto. Rê agradeceu, mas disse que NÃO PODIA DE JEITO NENHUM, pois vivia problemas pessoas e não estava "na pegada" para sair.

Arrumou um jeito menos forçoso de dizer que não queria, e acabou sendo contundente demais. Será que eu não merecia uma chance?

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Supermercados

Domingo aconteceu comigo algo que eu nunca vivi antes...


Estava finalizando umas compras no Dia quando a luz no bairro onde moro acabou.

Como o supermercado não tinha um sistema de gerador (um equívoco pra lá de amador), os clientes tiveram de ir embora sem efetuar as compras.

Foi uma situação cômoda para os funcionários, já que estavam em vias de fechar.

Tive de ir ao Pão de Açúcar, onde os preços costumam ser bem mais altos.

Por que será que um mínimo de civilidade dos atendentes deve estar embutido nos preços?

Porque o Dia, via de regra, é mais barato. Mas o atendimento...

E olha que eu nem falei da variedade de produtos.

Na mesma região, o Quitanda, outra rede de supermercados, vive uma situação semelhante.

Lá, o ambiente e a variedade são superiores ao Dia. Mas o atendimento é meio oscilante.

Enquanto as moças que servem o pão são pra lá de simpáticas, as caixas são pouco receptivas.

Um pouco de gentileza não faria mal a ninguém.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Política não é o meu forte. Mas...

Não tenho o hábito de tratar de política, mas tenho acompanhado com muito interesse a propalada derrocada moral dos parlamentares do Brasil.

De certa forma, eu acho boa essa tsunami de lama nos afogar. Entendo que não ficamos mais corruptos, mas mais bem informados. A meu ver, a sujeira de hoje é a mesma de anos atrás.

É aviltante a falta de comprometimento com o bem público da maior parte dessa gente. Mas eles são artífices de um círculo vicioso: o sistema de regalias mantido por alguns dinossauros - verba indenizatória, passagens aéreas, cargos de confiança em excesso e afins acaba engolindo até os políticos visto como exceções.

A notícia de que Fernando Gabeira deu uma das passagens a que tinha direito para a filha visitar a irmã nos EUA foi um soco no estômago. Mas nada me atordoou tanto quanto saber que Eduardo Suplicy - um homem a quem rendo profunda admiração - fez o mesmo para a namorada Monica Dallari. Eles próprios divulgaram seus erros antes que a imprensa os desvendasse.

Tanto disparate com a coisa pública faz muitos urgirem a necessidade de uma reforma política. Nesta semana, a revista "Veja" defendeu propostas como o financiamento público de campanha e o voto em lista fechada.

Sou totalmente a favor do primeiro item, que diminui a diferença entre "grandes" e "pequenos", combate devolução de favores e quebra os tais cartéis, que votam pelos seus financiadores, não pelos eleitores. Mas será inócuo se não houver forte fiscalização do eterno caixa dois.

Quanto à lista, tenho minhas dúvidas. O objetivo inicial é despersonalizar o voto legislativo e obrigar os partidos a se unificar. Bonito, mas o problema é que nossos partidos têm projetos de poder, e não de país. O PMDB é o exemplo mais acabado disso. Rachada como terra arrasada, a maior legenda do país navega conforme as conveniências. E visa a interesses. Caminhos parecidos, embora em doses bem mais homeopáticas, trilharam PSDB, DEM e PT. O primeiro surgiu em oposição ao poderio de Quércia, mas em 94 se aliou ao DEM (na época, PFL) porque de outro jeito não chegaria ao Planalto. Mais discreto do que o PMDB, o Democratas prefere ser poderoso na esfera legislativa para ter influência... não se aventura a vôos maiores.

Se a lista levar os partidos a um conteúdo programático mais consistente, será bem-vinda. Mas creio que eles já deveriam possuir tal maturidade.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Um Fenômeno diante de mim

O tempo... fez a tempestade molhar as ruas de São Paulo. Que coisa! Aquela manhã não merecia isso. Mas, de certa forma, fazia jus ao espírito deste que nasceu pra ser protagonista: Ronaldo. Mais que Fenômeno, sobrenatural.

Fiz tudo isso por amor ao futebol. Se tivesse 10% a menos desse amor, não faria

O tempo... regrediu à França de tanto pesadelo. Tivera um piripaque e não se lembrara de nada. Estranho, Leonardo lhe dissera que havia coisas mais importantes do que uma final de Copa. Família, por exemplo. "Que é isso? Tá maluco?", pensou. Aí, um médico abrira o jogo: convulsão. Seu estado dependia do que os exames acusariam. Quis fazê-los imediatamente. Ao constatar nada, pediu pra jogar. Perdeu!

"Fosse em qualquer outro lugar do mundo, eu seria considerado um herói. Mas aqui no Brasil, fui chamado de amarelão."

Mas algo pior estava para se apresentar. Avançamos à secular Roma de fins do século. O mundo voltava-se ao centro do estádio olímpico para ver a dor daquele guerreiro. Em plena final de copa nacional. A Lazio vencia por 2 a 1. Aos 12 minutos do segundo tempo, ele daria fim a cinco meses de estaleiro. Havia rompido o tendão patelar do joelho direito numa longínqua contenda contra o Lecce. Maldito buraco. Aí, entrou no lugar de Mutu. Quando diante de Fernando Couto ensaiava a valsa fatal que lhe era peculiar, o mesmo joelho trair-lhe-ia mais uma vez. Dor e desespero percorreram o planeta, e ecoaram na alma dos amantes do futebol. Era o fim!

Não era! Vestiu-se de luta e foi à forra contra a vida. De ar durão, um certo Felipão, intransigente como só, contrariou o senso comum e vaticinou o destino daquela seleção desbravaora: "Ronaldo Nazário".

E ele não desapontara o comandante: só não fizera gol nas quartas de final. Às vésperas da decisão, Ronaldo estava sorridente. Bem diferente de quatro anos antes. Alívio! De um jogo duro, nascera uma redenção. A grande muralha alemã deixou-a escapar... e o erro lhe fora fatal. Aí, Kleberson avança pela direita, muda para a diagonal e cruza. Rivaldo faz o corta-luz e Ronaldo ajeita, bate... e sacramenta. Venceu!
"Foram os gols mais importantes da minha carreira"

Voltamos ao presente. Ao som de Marcelo D2, o Ronaldo vestia a simplicidade que não faz jus à trajetória do Fenômeno. Camisa azul, calça preta e tênis All Star. A TV engana, amigo. O cara não tá gordo, não. Só um pouco acima do peso. Cercado por pesos pesados do jornalismo, abusou de sinceridade e não fugiu sequer às perguntas mais incisivas - a pobre Mônica Bérgamo fora pelo público bastante incompreendida. Falou de temas pesados, como o escândalo do travesti, e recebeu ovações nada lisonjeiras da plateia.

Como já fizera num "Bem Amigos", o Fenômeno falou da Copa de 2006. Criticou a má preparação e o constante assédio de torcedores brasileiros e estrangeiros. "O atleta precisa de tranquilidade para desenvolver o seu futebol. E a gente não se sentiu protegido. Havia transmissão ao vivo de sessões de alongamento. Um absurdo." E bateu forte em Ricardo Teixeira, que cortara relações com ele de maneira unilateral depois da derrota. Chamou-0 de "duplo caráter".

O tempo impõe nova viagem. Vemos o guerreiro então sofrera nova queda. Já vestia a camisa do Milan quando nova lesão no joelho o punha a nocaute. Às cinzas mais uma vez. Do lado de cá, outro gigante, também às cinzas, recolhia os cacos de uma queda anunciada, e começava a se levantar. Eis que as eternas aves sagradas se unem. E formam um conjunto imbatível. Campeão!

Como esta é uma relação ímpar, fica pra um próximo post.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Expansão... parece que é pra valer

Ainda não tinha muito por que escrever por aqui... mas um fato um tanto corriqueiro merece algum destaque.

Dia desses, fui resolver um problema para o meu irmão na Paulista. Fui de ônibus. E resolvi voltar de metrô.

Diante de tanta propaganda do programa de expansão da malha ferroviária metropolitana pelo governo, eis que sou surpreendido por um desses novos trens. Mais precisamente, o terceiro

A diferença para os antigos é colossal. Apesar de cheio, a forma hexagonal de seus vagões mostrou-se mais espaçosa. O fundo verde pareceu mostrar que o trem era uma exclusividade da linha que liga a Vila Madalena ao Alto do Ipiranga.

O som que anuncia a próxima estação é mais audível, e aquele tradicional marcador de estações faz uma espécie de "coro" com uma luz piscando na estação correspondente.

Parece que a expansão está mesmo sendo pra valer. Vamos ver!