quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Eu não me canso de buscar

Era um sôfrego peregrino

De noite até em dia

Padecia!

Tão deserto e sem destino,

Pequenino

Clamava aos céus por Maria


Do Alto a luz surgiu

Ela ouviu!

Mandou sua enviada a Coroada

Vestiu-se de Fátima e, dourada,

Brilhou! E o caminho se abriu


Pequena cintila Teu reino

Em rosa a ternura desabrocha

Desmancha em vibrante sorriso

E vaga a mente em paraíso

O sol deste pobre, cabrocha.


Bela então surge presente

Como se primeira vez

O tempo murmura premente

Espanta o acaso insistente

Se viram outrora, talvez


Sente essa paz elevada

Do teu olhar a bondade

A redenção tão sonhada

Guarda no pó tempestade


Essa penumbra me cansa

Fica e não deixa saudade

Consagração da esperança

Sopro de felicidade

O teu presságio é bonança

Amor! Me desfaço em verdade

quarta-feira, 29 de junho de 2011

"Presidenta" tá errado!

Não sou muito chegado a coisas que chegam por e-mail. Como jornalista, desconfio de tudo. Ou quase. Detesto correntes e muitas coisas assustadoras parecem obra de mentes pra lá de férteis, mas desprendidas de um senso de realidade.

Nem tudo, porém, é lixo. Arauto do uso correto da língua que me considero, aproveito da onda que combateu o livro "Por uma Vida Melhor" - que, na pior das hipóteses, minimiza o mau uso do idioma pátrio - para espalhar um texto muito interessante, assinado pela professora Miriam Rita Moro Mine, da Universidade Federal do Paraná.

A presidenta foi estudanta?

Uma belíssima aula de português.

Foi elaborado para acabar de vez com toda e qualquer dúvida se tem presidente ou presidenta.

Será que está certo?

Acho interessante para acabar com a polêmica de "Presidente ou Presidenta"

Repassando, gostei da aula,

A presidenta foi estudanta?

Existe a palavra: PRESIDENTA?

Que tal colocarmos um "BASTA" no assunto?

Miriam Rita Moro Mine - Universidade Federal do Paraná.

No português existem os particípios ativos como derivativos verbais. Por exemplo: o particípio ativo do verbo atacar é atacante, de pedir é pedinte, o de cantar é cantante, o de existir é existente, o de mendicar é mendicante...

Qual é o particípio ativo do verbo ser? O particípio ativo do verbo ser é ente. Aquele que é: o ente. Aquele que tem entidade.

Assim, quando queremos designar alguém com capacidade para exercer a ação que expressa um verbo, há que se adicionarem à raiz verbal os sufixos ante, ente ou inte.

Portanto, à pessoa que preside é PRESIDENTE, e não "presidenta", independentemente do sexo que tenha.

Diz-se: capela ardente, e não capela "ardenta"; se diz estudante, e não "estudanta"; se diz adolescente, e não "adolescenta"; se diz paciente, e não "pacienta".

Um bom exemplo do erro grosseiro seria:

"A candidata a presidenta se comporta como uma adolescenta pouco pacienta que imagina ter virado eleganta para tentar ser nomeada representanta.

Esperamos vê-la algum dia sorridenta numa capela ardenta, pois esta dirigenta política, dentre tantas outras suas atitudes barbarizentas, não tem o direito de violentar o pobre português, só para ficar contenta".

Por favor, pelo amor à Língua Portuguesa, repasse essa informação...

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Revendo posições

Eu queria refletir sobre uma coisa...

Vejo algumas pessoas muito de mal com a vida, transformando tudo em uma guerra dos sexos.

Dia desses, saiu na Vejinha uma matéria sobre casais que se conheceram via internet e as várias possibilidades de encontros que a rede possibilita.

Na semana seguinte, uma leitora, num rompante de extrema infelicidade, disse que, nesse serviço, as mulheres procuravam compromisso. Os homens, passatempo. Desgostosas com o mundo, algumas mulheres jogam fora os planos de "encontrar alguém" para viver como lhes convém. Num rompante até de prepotência, gritam para o mundo que um homem não vive sem uma mulher, mas a mulher vive perfeitamente sem um homem.

No lado oposto, uma piada recorrente versa que "quem gosta de homem bonito é outro homem. Mulher gosta é de dinheiro". É humor, mas provavelmente retirado de algum rompante de mágoa. Outros (não sem certa dose de razão) reclamam que elas gostam dos canalhas. Mas, pisadas por eles, tomam todos como se fossem uma coisa só e se vingam nos legais.

O que está acontecendo conosco? Preferimos o espírito competidor, em que necessariamente precisamos ter um rival, ao senso de coletividade, em que nos somamos ao outro para nos completar. Somos capazes de festejar a má sorte de um time com fogos de artifício - como fizeram os corintianos quando o Palmeiras foi rebaixado - ou esfregamos nossa conquista na cara do outro, para lembrá-lo de que "aquele ele não tem" - como fizeram os santistas com os corintianos depois de vencerem a Libertadores.

Às vezes, me vejo enquadrado em algumas dessas categorias. Mas penso que nem sempre os conceitos devem ser os mesmos.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Por que não dizer "sim"?

Eu queria refletir sobre uma coisa por aqui.

O relacionamento amoroso é uma espécie de jogo, em que o homem é o desbravador e a mulher, a definidora do resultado.

Na maioria das vezes, quando um cara se dispõe a conquistar uma mulher, precisa se armar de preparo e jogo de cena. Porque existem coisas que devem ser ditas; outras não podem ser feitas; um terceiro grupo tem boas chances de dar certo; um quarto deve ser abolido imediatamente, sob pena de tirar o cidadão do jogo.

É uma dinâmica muito bem entendida, principalmente pelo lado feminino da coisa. Está no DNA dela não dar as caras logo de primeira. Se sai do forno um convite para sair, o "não" é a primeira reação - que pode nas entrelinhas significar "tente novamente", ou "não tô afim", mesmo.

E aí, eu pergunto: se o cara é legal, por que não um "sim"? Por que esse medo de parecer "fácil"? Afinal, ninguém disse que vai dar namoro logo de primeira. Nenhuma mulher vai ficar com qualquer "fama" porque decidiu conhecer um cara - nem que isso acabe somente em amizade.

Muitos homens gostam desse jogo de conquista, e ganhar fácil demais perde a graça. Mas nem todos têm a segurança brutal que a sociedade dita "machista" exige. Esse cara, se enxergar uma negativa, pode até desistir e partir pra outra.

Sei lá... talvez eu seja um extraterrestre e o jogo tem de ser assim. Mas às vezes eu penso que as pessoas poderiam ser mais generosas e abrir mão de convenções - se a mulher dificulta demais, pode perder a chance de conhecer uma pessoa legal.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O céu ganha um guerreiro

Ai, ai, Meu Deus. Sua mão que me conduz
Do infinito, tão bonito fio de luz
Acalentando o meu pobre coração

Era uma das últimas tardes de domingo do século XX. Ia enfim encontrar aquele pessoal maravilhoso que só conhecia por e-mail. A Sociedade Amantes do Samba Paulista faria um encontro de fim de ano.

O evento aconteceria na quadra da Tom Maior. Filha direta do grande Camisa, a vermelho e amarela sumarense vive a nômade sina de não fixar o pé num canto. Sempre haveria alguém a destituir-lhe da quadra. Aquela ficava na Doutor Arnaldo.

A esconder os cacos de tanta luta, ele saía pela quadra a espalhar sincero sorriso. Não se furtava a cumprimentar quem por ali estivesse. Num dos dias mais incríveis da minha vida, em que experimentei pela primeira vez a magia de um ensaio, Marko, o Presí, estava presente. Vim a descobrir um tempo depois que era irmão de Marcelo, jogador de futebol que estudou comigo no Max.

Como já dizia um certo Ernesto, era firme sem perder a ternura. Nos ensaios, pedia para que os componentes não esmorecessem no canto e se organizassem na aquisição de fantasias.

No fim de 2007, fui à final em que o grande amigo Barba concorria ao lado dos parceiros Jelleya e Alemão com uma verdadeira "patada de urso" - gíria sambística para designar um daqueles sambas inesquecíveis. A letra tinha variações linguísticas e rítmicas muito interessantes. Mas, infelizmente, perdeu a disputa para uma composição a meu ver mais pobre - mas é do jogo da vida. A composição vencedora se transformou na voz do grande Renê Sobral, e com ela a Tom conquistou uma inédita vaga no desfile das campeãs.

Liderar a Tom nunca foi tarefa fácil. Além de sofridamente andarilha, a escola nunca foi das mais abastadas. Mesmo assim, sempre arrumou um jeito de deixar uma marca. A bateria de Mestre Carlão escandalizou as rígidas estruturas do batuque ao promover uma sinestesia entre ritmo e dança. Se não inovava, aperfeiçoava e escancarava.

Um povo então renasceu. Em 2009, Angola teceu um manifesto inesquecível... na caminhada de um povo esquecido. A comissão de frente exalou forte uma emoção que me pegou de jeito. E chorei como nem minha escola de coração conseguiu. No ano seguinte, a Brasília em vermelho e amarelo conseguiu ficar de pires na mão. Balançou... mas a guerreira do guerreiro não cai assim tão fácil.

O lindo ensaio no Sumaré se transforma na minha despedida. Não! Este sambista não dormirá jamais. Já dizia Brecht que são imprescindíveis aqueles que lutam a vida toda - quis o Criador que este voltasse para a sua Morada. A luz da alma que sempre refletiu em Tom Maior agora emana da eternidade. Obrigado por tudo, presí.

Lá no céu pipa vagueia
Pensamento que passeia
Criança no espaço sideral

Não há "gente diferenciada" por aqui

Confesso que li com algum ranço a chamada principal da edição desta semana da sãopaulo, a nova Revista da Folha.

Indo na esteira do protesto do Movimento Viva Higienópolis contra a construção de uma estação de metrô na Avenida Angélica, a publicação correu atrás de movimentos semelhantes realizados por outras associações de bairros listados como "nobres", pelo alto poder aquisitivo que comportam.

Ao ler o conteúdo, tive de me desarmar um pouco. As reivindicações de tais grupos, muitas vezes legítimas, primam pela discrição. A Sociedade Amigos da Vila Inah, no Morumbi, se cotizou e contratou um escritório de advocacia e um especialista em transporte para contestar a construção de um monotrilho na região - alegaram a falta de um projeto básico para a obra, que poderia gerar um novo "minhocão" (quem não é da cidade talvez não saiba que este é o apelido de uma horrenda via elevada que cruza o centro da cidade e possibilitou a degradação de seus entornos).

Defender os interesses de sua comunidade é mais do que legítimo num país que se pretenda livre. Tais movimentos podem até dar mais subsídios para movimentos de orientação mais ampla - como questionar a legalidade de um aumento de tarifa de ônibus, por exemplo.

O mais cruel nessa história toda é a grana alta fala mais alto no quesito eficiência. Passeatas e estridência, além de não necessariamente redundar e resultados, joga os manifestantes contra os cidadãos.

Até que ponto, no entanto, o interesse privado deve se sobrepor ao público? Muitas vezes as iniciativas embutem preconceitos. A declaração da dona Florinda higienopolitana que não queria se misturar à gentalha "diferenciada" que viria com o metrô não é exatamente uma frase jogada ao vento. Suspeita-se que a mesma motivação tiveram moradores da região da Avenida dos Três Poderes, no caminho do Morumbi, que venceram uma queda de braço contra estação de metrô de mesmo nome por ali.

Mesmo a possibilidade do aumento de insegurança não é justificativa para barrar um empreendimento tão essencial numa cidade sufocada pelo inferno do trânsito nos horários de pico. As obras do metrô, aliás, conseguem andar em marcha ainda mais lenta do que os 7 milhões de veículos paulistanos. Se a delinquência é problema, que haja mais iluminação e postos policiais nos entornos das estações - ora, a Cracolândia não impediu o renascimento da Sala São Paulo, que abriga uma Orquestra referência internacional.

Se por um lado é salutar à democracia a proteção aos protestos de motivação privada, é preciso também aprender com tamanha mobilização em nome de um bem maior - a cidade de São Paulo.

sábado, 21 de maio de 2011

Vanessa, a "Paula" da minha vida

Pena, que pena
Que coisa bonita
Diga qual a palavra
Que nunca foi dita

A primeira semana de aula estava prestes a terminar. E a última aula, Antropologia Cultural, não parecia dar futuro. O professor, Celso Prudente, parecia saído de um clássico da literatura de tão difícil que falava. Num instante, para me chamar a atenção, o cara virou pra mim e disse:

"Ô ilustre, mora aqui. Depois, você deriva"

Que diabos era aquilo? Talvez significasse que eu devesse me concentrar mais na aula, ou algo assim. A verdade é que o Celsão era doidaço, mas também muito boa gente. E o nosso amigo serviu de ponto de partida para uma das histórias mais bonitas da minha vida - Vanessa.

Na saída para o ponto do ônibus, divagamos sobre aquela aula nada ortodoxa. Fui no mesmo ônibus que ela - não sei se Shopping Continental ou Jardim Maria Luiza, mas era um desses. Só sei que era caminho para casa e a acompanhei. E cada vez mais nos sentimos de alguma forma afinados.

Também juntos ríamos e nos perdíamos. Uma vez, na aula de História da Comunicação, o José Maria das Neves balbuciava a sua aula, e nós não prestávamos lá muita atenção - porque a base da nota era um trabalho de temas prestabelecidos. Aí, ela levanta a mão e pede para ele falar mais alto. Ao que ele responde: "Minha filha, a aula já acabou!"

Descobri que, quando cantava os tantos sucessos da MPB, sua voz parecia deslizar o horizonte, de tão poderosa. Como ela sempre fora! Assim aconteceu naquela viagem ao Pontal do Paranapanema, para onde fomos desenvolver uma série de trabalhos. Uma jornada das mais inesquecíveis.

Vanessa era explosiva e acolhedora. À época, namorava Roberto, um sujeito às vezes brigão, mas de um coração que mal cabia em si de tão grande. No meu 22º aniversário, os dois me ligaram para dar os parabéns. Parece pouca coisa, mas pra mim significou muito - eu nunca fui dos mais populares. Ganhava cumprimentos tão somente dos familiares.

No último ano, tive de me ausentar da faculdade para tocar um projeto experimental que se revelaria mais tarde um fracasso. Ouço então um recado dela na minha secretária: "Estou preocupada. Você não tem ido à faculdade". Nunca havia pensado que alguém sentiria a minha falta.

Fui uma espécie de quinto elemento de seu trabalho final. Eles fizeram um documentário sobre a cidade de São Paulo, e eu fiz a narração. Mesmo não fazendo parte do grupo de forma oficial, fiquei feliz de ter feito parte daquela iniciativa, que tirou nove e meio.

Na festa de formatura, descobri que a vida real, às vezes comum, pode de quando em vez guardar lances extraordinários. Minha mãe tinha acabado de perder minha avó e meu tio para a Eternidade, e se sentia um tanto sozinha. E o Negro de felicidade se unia a um Solimões de tristeza. Mas eis que encontra Roseli. A mãe de Vanessa era filha de Dona Mulata, uma grande amiga de quem minha avó falava muito. E no meu quarto aniversário, lá estava aquela pequena que, anos mais tarde, me encontraria colega de classe.

Não é de se admirar tamanha afinidade. Nossas vidas se encontraram na infância e na juventude. Partimos por outros assuntos, mas estaremos sempre juntos. Em "Papai, me compra um amigo?" de Pedro Bloch, me vi Bebeto, o menino com extrema dificuldade de relacionamento que descobre em Paula uma grande companheira capaz de ajudá-lo a superar a timidez. Vanessa é pra mim muito mais do que isso. Amo-a de qualquer maneira, pra vida inteira.