segunda-feira, 1 de outubro de 2012

As várias nuances da arte

Parecia um daqueles fins se semana cheios de mormaço. O tempo virou e um resfriado daqueles caiu em mim como bigorna. Não virou gripe sabe-se lá por que, mas me impediu de ver o samba passar na Cantareira.  Barba e Jelleya, velhos conhecidos dos áureos tempos de Sasp, disputavam mais uma final de samba. Já os tinha visto perder na Tom Maior, e não pude presenciar glorioso triunfo na Acadêmicos do Tucuruvi. 

Com tristeza vi o vento frio de sábado fechar-me as portas enquanto eu brigava em vão contra nariz, espirro, coriza e quetais. Em permanente reflexão sobre os tempos modernos, revi as fotos de duas semanas atrás. Numa delas, quase não me reconheci. Lembrava-me de cantar o maravilhoso "sai da frente" e de posar para a câmera numa irreverência pra lá de incomum na minha persona que pende mais para o reservado.

Como integrante de uma comunidade espiritualista que se recolhe no Carnaval, me vi cobrado pelo paradoxo. Depois de muito refletir, deixei lá a foto. Eles disseram que "fui um monstro" naquele dia. Concluí que o valor da amizade e da plenitude poética que a composição me incutiu valia um pequeno desvio de rota.

O domingo me reservaria outros horizontes. Refúgio dos meus preferidos, a Sala São Paulo novamente reservava a Bachiana Filarmônica. Ainda me recordava as maravilhosas danças húngaras de Brahms, quando quem se revelaria daquela vez seria Ravel, que se orgulhava de ser a sua música uma expressão muito mais de sentimento que de intelecto.

No começo, o Don Quixote de Francisco Campos Neto pareceu dobrar triste ante Dulcineia. João Carlos Martins viajava na mesma onda, porque Hebe Camargo se fora - levando com ela cinco décadas de história televisiva. Dedicou a ela "Pavane pour une infante dèfunte", o réquiem para uma criança morta. Mas, mais teimoso que heroico, em suas próprias palavras o bravo maestro mudava o rumo do que era certo. O que era preto foi aos poucos tornando cinza.

"Rapsódia espanhola" e "As portas de Kiev" começavam a virar o jogo e encher a alma de uma emoção mais colorida que cinzenta. E o conhecidíssimo "Bolero" retomava em microcosmo todas aquelas sensações e irrompia como sempre em sua verve memorável - e trazendo também uma recordação do passado, em que ele fazia pano de fundo para um número artístico de Cosme e Damião.

Como sempre, Martins trouxera surpresa, e nela uma revelação. Viraria a sua vida cinema pelas mãos dos Barreto. Marcelo Serrado, cujo talento viajou entre os extremos Crô e Tonico Bastos, viverá o maestro. Redescobrindo o pianista Humberto, de O Dono do Mundo, Serrado tira da cartola um prelúdio de Bach. Libertango sela a rapsódia já pra lá de reluzente à volta da Estação de trem transformada em sala de espetáculos.

A arte em todas as nuances banha a vida. A popular deu vez dessa vez à chamada erudita. Cada uma a seu modo, enche a alma de vida.


domingo, 9 de setembro de 2012

Samba sete: a sensação sentida ao vivo

Fazia década que não ia à Tucuruvi. Ainda me lembro da final para 2002, quando Jelleya, Kadu e companhia venceram a disputa pra falar de Uberlândia. À primeira vista, pareceu que o tempo não passou. O mesmo posto da Petrobras ao lado da quadra, já na esquina com a rua Purus, a mesma simplicidade acolhedora do lado de dentro.

Iam chegando os componentes de diversos setores: ritmistas, harmonias, diretorias. Antes de entrar, dividiam três espaços: uma van de cachorro-quente em frente à quadra, uma barraca do outro lado da Mazzei e outra do lado de lá, logo depois da Purus. A certa hora, Adamastor chegava com refrigerantes e, com a autoridade do mestre que é, manda os batuqueiros darem uma força.

Iam chegando os competidores, cada um com sua cor, mas com algo em comum: o desenho de Mazzaropi às costas. Aos cem anos, o Jeca Tatu mereceria da Cantareira honrosa homenagem - justiça seja feita, o contemporâneo Adoniran, tão genial quanto, não teve a mesma sorte. Ouvi as gravações em estúdio do samba 7, de Barba, Jelleya, Alemão, Felipe Mendonça, Maurício Pito e Leandro Franja, e não pude deixar de arrebatar. Tinha que ver aquela "paulada" ao vivo.

Ainda deslocado, um incauto dos tempos de Sasp me cumprimentou: Fred Marimba. Dez anos depois, estava um tanto mudado, mas enfim reconhecível. Eu, de boa memória, levei um tempo pra reconhecer o perucheano de voz potente e jeito de compositor. Ele percebeu a dúvida e ainda tirou onda da minha cara. Confesso no deslize, admito: ele tá coberto de razão.

E enfim me enturmei. Surpresa e felicidade ao receber cumprimentos de Jelleya pelo post anterior - que foi lido por todos os integrantes da parceria. Eles me perguntaram da dinâmica do Confraria - um blog pessoal, pouco lido e, por isso, de periodicidade incerta. Alemão e Marimba conversam sobre as caravanas feitas às finais do Rio, vitórias incertas e o nem sempre fácil acesso dos compositores aos melhores intérpretes.

Chega o Barba e chama o Raphael para a passagem de som. Aquela névoa que misturava alegria, emoção e poesia emanada pela composição, ao ouvir o áudio pelo computador, multiplicou-se ao vivo ao soar de tantas vozes engajadas e embargadas. Entramos, porque o Sete seria o primeiro samba a se apresentar.

Lá dentro, Adamastor dava à batucada um andamento cadenciado - temperado com a ótima paradinha reggae adotada de outros carnavais. Jelleya pediu pra torcida se espalhar até a área permitida pela harmonia. Quando Raphael entoou o grito de guerra, a mesma emoção. Foi uma apresentação machucada pelo feriado, já que muitos viajaram, mas muito consistente. 

Ouvi a passagem dos demais sambas e suas torcidas. Armênio e Imperial, excelentes compositores, não poderiam deixar de entregar ótimos cartões de visitas. A briga é boa, mas as chances não são nada desprezíveis. Um fim de noite para recordar e repetir. Assim espero.

domingo, 26 de agosto de 2012

Um samba pra lá de Mazzaropi

O ano carnavalesco que desemboca em 2013 já começou. Definidos os temas, compositores lançam mão do enredo para viver o sonho de levar uma obra pra avenida.

A Acadêmicos do Tucuruvi, vice-campeã de 2011, presta reverência ao centenário de Amácio Mazzaropi, o paulistano criado em Taubaté que traduziu em arte a figura do homem do campo de sua época. A obra do artista compreendeu passagens por circo, rádio, TV e cinema.

Composta por campeões deste ano, a parceria de Barba, Jelleya e Alemão conta ainda com Felipe Mendonça, Maurício Pito e Leandro Franja. Mais do que acertar mais uma vez, o grupo conseguiu ultrapassar seus próprios limites.

Barba conta terem eles ido além da sinopse: viram 6 filmes, leram o livro e visitaram o museu. Tanta preparação resultou numa obra à altura de Mazzaropi.

Alternando o foco narrativo do folião ao artista, o samba tem a levada alegre, tão característica da União da Ilha, sem abrir mão da poesia. Mazzaropi parece emocionado ao começar a contar sua história. Usa a frase feita, mas não deixa de ressaltar que "Minha fantasia é feita de amor" e "O teu sorriso me faz feliz".

Mas não se engane que o "maior dos caipiras" é matreiro que só. Num átimo puxa um sorriso com o inspiradíssimo refrão central. Saca da ironia e crava: "O Jeca Tatu não é puritano/ Há! Há! Há!/ Ele é corintiano".

E então torna, novamente terno, a relembrar da fase midiática. O público continua crucial, pois que é imagem e semelhança ("Na tela da TV eu fiz/ Espelho pra gente se ver"). E o final, certeiro, trata com extrema felicidade a morte do artista - a leucemia levou Mazzaropi em 1981. Obra e carnaval, no entanto, o eternizam. Mazzaropi é estrela não só porque parte, mas porque é arte. 

Essa mistura de irreverência e lirismo tem pela frente ótimos concorrentes. Ainda assim, dá à agremiação da Cantareira uma enorme possibilidade.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A glória discreta de Arthur Zanetti

A trajetória contemporânea da ginástica artística brasileira contemplou Luiza e passou por Daniele, Daiane, Diego e Jade. Garimparam vitórias importantes em Mundiais. Diego Hypolito foi bicampeão no solo, em Melbourne (2005) e Stuttgart (2007). Também no solo, Daiane dos Santos venceu na americana Anaheim (2003). E Jade Barbosa conquistou um expressivo bronze no individual geral de Stuttgart. Nenhum deles, no entanto, conseguiram traduzir a aventura em conquista olímpica. Coube a um discreto paulista de São Caetano ser o primeiro a inscrever tal glória na história esportiva brasileira.

A medalha de ouro de Arthur Zanetti não era cogitada pelo torcedor pouco afeito ao esporte. Mas quem acompanha com um pouco mais de assiduidade já poderia esperar coisa boa vinda dali. A primeira vez que o vi competir foi quando ainda atualizava um blog chamado Planeta Esporte. 

Era 2008, e ele se classificava a duas finais da etapa eslovena da Copa do Mundo, uma competição menos expressiva do que os Mundiais e as Olimpíadas. Fora terceiro colocado no solo e sexto nas argolas, a sua especialidade. À época, o aparelho ainda tinha no trono o holandês Yuri Van Gelder e atletas mais experientes, como o francês Danni Pinheiro. Parecia ser bom atleta, mas não carregava cartaz. Ainda assim, eu dizia a mim mesmo: é bom guardar este nome.

Até que, no mundial de Londres, no ano seguinte, o cara tirou um surpreendente quarto lugar, com 15.325, a 2 décimos e meio do primeiro colocado. Dois anos depois, em Tóquio, a nota sobe 275 milésimos (15.600) e ele vai ao pódio: só fica atrás do chinês Ybing Chen.

Arthur chegou a Londres credenciado. Dele, no entanto, pouco se falava. Apostava-se em Cielo, Fabiana, vôlei, futebol. Enquanto estes ainda figuravam na linha de frente, ora vencendo aos trancos, ora conseguindo menos do que almejava, ora sucumbindo ao vento, Arthur ziguezagueava pelos flancos, sem dar bola pra fama. Optou por um exercício mais conservador na fase inicial e se satisfez com o quarto. Guardava na manga uma carta mais matreira. Apresentar-se-ia por último na decisão.

Chen e o italiano Matteo Morandi tinham feito grandes apresentações. Sem olhar para o lado, fez o seu. Nem mesmo a leve imperfeição do pouso abalavam o alívio de ter bem cumprido a missão. Os 15.900 finais  selaram uma inédita medalha de ouro. 

Aqui encerra-se uma história e, espera-se, começa outra. Que o Brasil crie juízo e faça de Arthur a referência para a criação de futuros campeões.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

São Paulo em 140 toques

No porto onde as pessoas pegam os seus sonhos ao chegar ou, já disperso deles, se vão, arte resume em  som e dança; canto e corpo, a maluca metrópole.

Como um microcosmo de si própria, microcosmo do mundo, numa miríade tons migrantes se abrem. O Rio, a Bahia, o Centro-Oeste. E ela própria.

Tão democrática, não se envergonha de, na mesma colcha de retalhos que tão lhe é peculiar, misturar o  clássico corpo dourado do sol de Ipanema ao indecifrável tchutchatchá. Ivete, como sempre, premedita o breque.

Assim, "da japonesa loura à nordestina moura", independente dos seus governantes, a cidade se encontra, se discute, se reinventa. Nem que seja na forma de som e corpo; canto e dança.

A gigante Rodoviária do Tietê; da imensa São Paulo; do imponente Brasil.

domingo, 22 de julho de 2012

A legitimidade do ressentimento

Uma reportagem do Esporte Espetacular foi a cereja do bolo de uma reflexão que, por motivos pessoais, há algum tempo eu vinha fazendo.

Luis Figo, ex-craque da seleção portuguesa, esteve no Rio para divulgar um movimento para beneficiar jovens carentes via futebol. Tratava-se de uma competição que dava aos vencedores oportunidades de treinar em grandes clubes. Os campeões ganhavam uma semana no CT da Inter de Milão. Quem ficava em segundo iria para o Fluminense.

Consolado pelo pai, um menino copiosamente derramava o choro da derrota, talvez uma entre tantas a que terá de se habituar. Em criança, ainda terá as lágrimas toleradas. Mas, quando crescer, terá de se tornar um forte - afinal, homem não chora.

Um conjunto de normas da vida (não gosto muito de falar em sociedade, porque soa clichê) fala muito em aceitar rejeições e derrotas. Infundem pressão para não "fraquejar", como se fácil fosse pra digerir. Como se não pudéssemos ligar o mecanismo da frustração inerente a situações assim.

Tal imposição pode ser vista com particularidade no universo afetivo. Certa vez, o filho de um amigo, meio desajeitado nos tais jogos da conquista - palavras dele mesmo, porque não sei se existe "o certo" em horas assim - encantou-se com uma simpática moça com quem estudava. Tentou chegar perto do seu jeito, e a chamou pra um café. Eis que a moça devastou todos os sonhos: percebeu o interesse e disse, de modo nada gentil, que já estava em outra, "tava muito legal" e "não tava afim de criar problemas no relacionamento". 

Como "lidar" com uma coisa dessas? Fingindo que nada aconteceu? É correto lugar-comum reconhecer a legitimidade da opção da menina de não estar afim. Mas não será direito dele, também, ficar decepcionado com ela?

É óbvio que aqui não vão incluídas as portas na cara levadas na balada: ir ao divã porque levou toco na pista de dança é demais. Mas situações mais profundas demandam lá o seu luto particular. Tristezas, revoltas,  ressentimentos e sedes de vingança, se não devem virar modo de vida, também não podem ser varridas pra debaixo do tapete em nome de uma suposta iluminação. A meu modesto ver, a tal purificação espiritual depende da vivência destas emoções.

Pra lá de magoado - menos pelo fora em si do que pela forma agressiva com que foi dado - o menino quebrou as tais"regras": deu um gelo definitivo e sequer dá bom dia. Aos poucos levanta, sacode a poeira e até tenta dar a volta por cima. Mas, embora um tanto exagerada, a atitude advinda da mágoa é, sim, muito válida.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Amor: tão singelamente intenso

Existem coisas que, parece, foram feitas pra cair no seu colo.

Dia desses, fuçando no Facebook, uma amiga compartilhou o que se considerava o mais sensacional dos pedidos de casamento. Tirou a novidade do site Cortissa.com.br

Isaac Lamb não se contentou com o conservadorismo latente em jantares caretas ou noites de lua-cheia. Precisava dar a Amy uma tarde inesquecível. 

Pois eis que ele saca de "Marry You", de Bruno Mars, e fez uma coisa pra lá de especial. Singela e criativa, mas não improvisada, tampouco original. Inspirou-se em Glee e U2 e transformou a ocasião numa superprodução da Broadway.

Fazia tempo que não me emocionava tanto - talvez pelo desejo de viver um momento como esse em breve. Não se faz uma grandiosidade dessas se o amor de Isaac não for infinito. Não se recebe uma proposta tão épica se Amy não for absurdamente especial.

Diante disso, me pego refletindo um pouco a respeito da solitude da caminhada eterna. Será que estamos mesmo a sós? Não sei! Às vezes o amor, vertido em ínfimas porções como essa, nos faz evoluir sempre juntos.

No plano terreno, parece nos fazer crer que há espaço para a felicidade nas nossas vidas. Sempre do nosso jeito! Nunca opressora por paixões vazias e vontades alheias. Mas sempre nos ensinando que quem merece a nossa atenção é aquela pessoa que te completa com um simples "bom dia".

Não saia sem antes ver o vídeo. Prepare o lenço.